quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Contos , pensamentos e devaneios - A história de Carolina



 Contos , pensamentos e devaneios (Por Tati Gadani)
A história de Carolina.

Era uma tarde de verão abafada e tudo estava sufocando ela. Era a pressão dos seus pais lhe enchendo a cabeça para que se casasse, era a pressão dos professores insistindo que ela tinha talento e que podia dar o melhor de si. Eram as amigas competindo diariamente o melhor corte de cabelo, o melhor vestido, o melhor namorado. Era a competição, o seu instinto competitivo. Ela via competição em tudo, queria ser melhor em tudo, era pressionada, esmagada pelo ego alheio, por suas projeções inalcançáveis. Ela queria fugir de tudo aquilo, não aguentava mais viver assim. Só queria alguém em quem pudesse confiar, que pudesse desabafar sem que a julgassem... E só Deus sabe que eles iriam julgar os seus pensamentos. Ela não era boa, não tinha pensamentos puros, mas no fundo o que ela realmente almejava era a liberdade de poder fazer o que quisesse, sem aquela pressão, sem competir, sem que qualquer erro mínimo fosse jogado na sua cara, como se fosse o maior crime do mundo, a coisa mais hedionda que alguém pudesse fazer. Ela não queria ser perfeita e de fato ela não era. Ela apenas queria viver e fazer o que tinha vontade, sem regras e sem cobranças.
...
Depois de uma briga calorosa em casa, das cobranças sem fim, dos berros, das ameaças, ela bate a porta. A mãe grita – Se você sair daqui é pra nunca mais voltar! Mas ela sabia que aquela frase raivosa era dita da boca pra fora, e que a mãe iria se preocupar e recebe-la mesmo assim. Mesmo aos gritos e pontapés, ela sabia que poderia voltar para sua gaiola dourada.
Passou por uma quadra, outra, andou sem destino... Mil pensamentos se passaram na sua cabeça. Ela pensou em dar fim em sua própria vida, mas não teve coragem, era covarde. Chegou a uma seguinte conclusão “Talvez a própria vida lhe matasse asfixiada com todo aquele sufocamento, com toda aquela pressão ou talvez enlouquecesse de vez e perderia a razão e no fim nada disso teria algum sentido para ela”.
Pensou em fugir, mas ir pra onde? Com que dinheiro? Ela tinha uma vida boa na gaiola dourada, apesar das cobranças, da prisão, das ordens e regras, sempre teve o que queria, era mimada. Mimada não, talvez acomodada.
Pensou então que poderia vencer, passar por tudo aquilo de cabeça em pé, mostrar que podia ser melhor do que as pessoas pudessem imaginar.
-Eu vou ser grande, todos ainda vão conhecer o meu nome. Carolina Sousa a garota popular!
Ah, mas quanta bobagem...

Logo deu risada dos próprios pensamentos, riu tão alto que nem percebeu que alguém que lhe fitava e que havia sorrido também. Algúem sorriu daquele momento estranho no qual uma desconhecida e solitária garota dava uma gostosa e inusitada gargalhada.
 Envergonhada ela se escondeu entre os seus cabelos volumosos, longos e negros, se escondeu tão bem, que a única coisa que dava pra ver do seu rosto pálido era a ponta do seu nariz arrebitado.
- Não se preocupe, eu também tenho as minhas reflexões profundas das quais não consigo definir o que é real ou não. A gente se perde em meio aos pensamentos, e sem querer os transportamos para o tempo real. Só dei risada, pois sua gargalhada me contagiou, me desculpe garota.
Disse o estranho, ainda fitando ou tentando enxergar algum sinal de vida humana naquele emaranhado de cabelos.
-É exatamente isso! Disse em tom tímido e baixo.
Acho que você me entende.

Abriu a cortina negra que os seus cabelos formavam e saiu como se fosse a diva de um espetáculo, ela era uma garota exótica de uma beleza incomum, quase que mórbida. Pálida, magra, alta e com olhos tão grandes e brilhantes que mais pareciam um par de bolas de gude verde florescente.

Continua...



Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Berê disse...

Estou gostando e esperando o próximo capítulo...