segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Biografia - Carmen Miranda: a explosão brasileira

Carmen Miranda: a explosão brasileira

Ela nasceu em Portugal e se tornou brasileira, se chamava Maria do Carmo mas entrou para a história como Carmen Miranda. A Pequena Notável é a artista brasileira mais famosa no exterior até hoje. Carmen Miranda se inventou e criou um mito tão forte que se confunde com a própria identidade cultural do Brasil. Ela era um grande espetáculo e nunca sua imagem esteve tão em alta quanto agora. Carmen é a cara do Brasil.
Carmen Miranda trilhou rigorosamente os degraus que galgam o sucesso e costumam fazer as grandes estrelas. Ela abandonou os estudos aos 16 anos, teve vários empregos, e foi descoberta por acaso. Ela alimentava o sonho de ser artista e passou a fazer figurações em vários filmes da época. Onde quer que ela fosse trabalhar, vivia cantando e sua bela voz acabava chamando atenção dos clientes, que ficavam encantados. A grande chance veio em 1929 com um convite feito por uma cliente, para uma apresentação no Instituto Nacional de Música.
Apesar de Carmen não ser especificamente uma sambista – esse título se atribuído a ela. – Carmen gravou mais de vinte canções entre Tangos (um de seus gêneros favoritos), Sambas, Foxtrote, Marchas e Lundu. Dos mais populares autores brasileiros, como Ary Barroso, Pixinguinha, Noel Rosa, Cartola e Assis Valente. A carreira seguiria de vento em popa, Carmen excursionou por todos os estados do Brasil e começaria a fazer sucesso nos países da América Latina. Tendo ido a Argentina e o Uruguai várias vezes. Carmen também passou a estrelar vários filmes na época, ao todo ela fez sete filmes no Brasil – a maioria, perdidos. Ela passou a ser chamada de A Pequena Notável - por causa da estatura baixa.

Carmen já era consagrada no Brasil e estava no auge do sucesso. Quando em 1939, chegou ao Rio, o poderoso empresário da Broadway Lee Schubert, que veio especialmente para vê-la no Cassino da Urca. Ela já havia recusado uma proposta de carreira nos Estados Unidos, feita pelo astro Tyrone Power no ano anterior, mas desta vez, Carmen assinou contrato para a revista musical Streets of Paris (Ruas de Paris) na Broadway. Ela partiu em 4 de maio de 1939, ás vésperas da 2ª Guerra Mundial, a bordo no navio Uruguai, sem saber falar sequer uma palavra em inglês.
Em 29 de maio de 1939, Carmen estreou no musical Streets of Paris em Boston, com êxito estrondoso de público e crítica (a estrela do cinema Judy Garland chegou a ir vê-la no espetáculo cinco vezes). Ela agora era chamada de The Brazilian Bombshell (a explosão brasileira). O sucesso era crescente, em 5 de março de 1940 ela fez uma apresentação para o presidente Franklin D. Roosevelt durante um banquete na Casa Branca. Neste mesmo ano ela faz sua primeira aparição no cinema norte-americano. Foi em Serenata Tropical (Down Argentine Way), da 20th Century-Fox, em que Carmen apenas canta. O filme estreou em outubro e bateu recordes de bilheteria.
Poster do filme Serenata Tropical

Entre 1940 e 1953, Carmen atuou em treze filmes em Hollywood. Seu sucesso era estrondoso. Além do cinema, ela participou de vários programas de televisão, rádio, cassinos, casas noturnas e teatros norte-americanos. Ela se consagrou em 1941, ao ser a primeira e única luso-brasileira até hoje, a gravar as mãos e plataformas no cimento da calçada da fama do Teatro Chinês em Los Angeles – ela também possui uma estrela na Calçada da Fama do Hollywood Boulevard. Carmen era a principal atração do Copacabana Night Club, famosa boate nova-iorquina, fundada em 1940 e que existe até hoje em Manhatan. O cartaz do “The Copa” é desde aquela época uma gravura estilizada de Carmen, em homenagem a cantora.
Costumou-se associar Carmen Miranda ao que se chama no Brasil de “Política da Boa Vizinhança”, empreendida pelos EUA nos anos 40, na América Latina para buscar aliados na 2ª Guerra Mundial. Apesar de Carmen ter obtido o sucesso nos EUA muito antes da implantação da política da Boa Vizinhança (o personagem Zé Carioca de Walt Disney esta muito mais associado a isso), ela acabou se tornando o modelo mais bem sucedido do projeto. Seu estilo exótico e exuberante cativou o público norte-americano, que ficava encantado com aquela artista de um país dos trópicos, que sustentava frutas na cabeça, vestia figurinos exuberantes, cantava um ritmo empolgante e dançava freneticamente.
Carmen Miranda tornou-se um hit nos EUA. Ela apareceu em desenhos animados como Tom e Jerry e Popeye. Foi imitada e caricaturada por Lucille Ball, Bob Hope, Jerry Lewis, Mickey Rooney e Dean Martin. A imagem de Carmen era muito forte, cômica, engraçada, caricata. Acabou-se criando um verdadeiro estereótipo, o que nem sempre é positivo. Mesmo assim, Carmen sem dúvidas foi a artista latina mais bem sucedida nos EUA na Hollywood antiga, e nos EUA sua imagem ainda hoje é mais forte do que no Brasil.
 Jerry Lewis, Carmen Miranda e Dean Martin.

A imagem fabricada pelos filmes da 20th Century-Fox acabou criando um inconveniente para Carmen: ela percebeu que estaria aprisionada a imagem da “Garota Latina” para sempre. Como contratada da Fox, Carmen era uma mina de ouro para a companhia, ela era obrigada a forçar um sotaque latino caricato, mesmo falando inglês perfeitamente. Nos filmes, grandes musicais luxuosos em Tecnicolor – tão estonteantes quanto o seu figurino – Carmen tanto podia interpretar uma brasileira, quanto uma mexicana, cubana, porto-riquenha ou até uma cigana. Mas ela era sempre a garota latina. Entre os atores com quem contracenou, estão nomes importantes da antiga Hollywood, como Alice Faye, Betty Grable, Jane Powell, Vivian Blaine, Groucho Marx, Dean Martin, John Payne e Cesar Romero. Entre os filmes, os que mais de destacam são Uma Noite no Rio (That Night in Rio; 1941), Minha Secretária Brasileira (Springtime in the Rockies; 1942), Entre a Loura e a Morena (The Gang’s All Here ; 1943) e Serenata Boêmia (Greenwich Village; 1944).
                                                    Cartaz de The Gang’s All Here

Em meados dos anos 40, Carmen Miranda já era a artista mais bem paga dos Estados Unidos e a mulher que mais pagava imposto de renda no país. No fim dos anos 40 ela excursionou por toda a Europa, fez longa temporada no Teatro London Palladium em Londres, batendo recordes de público, e até chegou a receber simbolicamente as chaves da cidade de Estocolmo, capital da Suécia. Em 1947, Carmen se casou com David Sebastian, segundo ela, porque tinha medo de ficar sozinha e ele foi o único que a pedira em casamento.
A extenuante agenda de shows foi massificando Carmen ao longo dos anos. Ela se tornou mais uma das muitas dependentes de barbitúricos em Hollywood, assim como Judy Garland ou Marilyn Monroe. Carmen precisava dos remédios para comer, dormir, acordar, basicamente tudo. Naquela época, o consumo de barbitúricos era permitido e até incentivado no cinema, em Hollywood. Isso, somado a dependência de álcool e cigarro foi potencializando o efeito destrutivo dos remédios. No fim da vida Carmen Miranda estava muito doente. Foi então que por recomendação médica, Carmen voltou ao Brasil pela última vez, após quatorze anos de ausência, um ano antes de sua morte.
 Carmem e o marido David Sebastian

O maior sonho de Carmen sempre fora casar e ter filhos, infelizmente ela nunca realizou nenhum dos dois. O casamento com Sebastian era um fracasso, e a após um aborto espontâneo ela jamais conseguira engravidar. Seu médico brasileiro constatou a dependência química e tentou desintoxicá-la. Ficou quatro meses internada em tratamento numa suíte do hotel Copacabana Palace. Carmen melhorou, embora não tenha abandonado completamente remédios, álcool e cigarro. No Brasil, ela viveu o último carnaval da sua vida, o carnaval que a tinha consagrado e que a tinha como a filha mais ilustre.
Carmen voltou em abril de 1955 para os EUA e logo recomeçou tudo outra vez, o trabalho com uma agenda lotada de shows. Carmen se apresentou em cassinos por todo o país, foi a vários programas de televisão e viajou para Cuba onde se apresentou em Havana. Na noite de 4 de agosto de 1955, Carmen Miranda apareceu no Jimmy Durante Show. Durante um número de dança, ela quase desfalece, sendo amparada pelo apresentador Jimmy Durante. Foi sua última aparição ao público.
Na mesma noite, recebeu amigos em sua residência em Beverlly Hills, à Bedford Drive, 616. Por volta das duas da manhã, após beber e cantar para os amigos presentes, Carmen subiu para seu quarto para dormir. Acendeu um cigarro, vestiu um robe e caminhou em direção a cama com um pequeno espelho na mão. A mulher que nasceu com o nome de Maria do Carmo Miranda da Cunha, em Marco de Canaveses – norte de Portugal – no dia 9 de fevereiro de 1909, morreu vitimada por um colapso cardíaco fulminante que a derrubou morta sobre o chão no dia 5 de agosto. Seu corpo foi encontrado pela mãe Maria Emilia no dia seguinte, as 10:30 da manhã. Carmen Miranda tinha apenas 46 anos.
Em sua época, o Brasil ainda era um país pitoresco, exótico e longínquo, muito pouco conhecido. Carmen representava muito do Brasil e deu ao mundo a imagem de um país feliz, alegre, tropical, quente e positivo. É óbvio que o Brasil não é só isso, mas Carmen mostrou a outros povos o que é a nossa música, a nossa dança e a nossa arte. Por isso a imagem de Carmen e o Brasil ficaram geminadas por tanto tempo, porque Carmen era meio que o próprio Brasil. Ela oferecia o nosso melhor e mais bonito aos estrangeiros. O carnaval, o samba, o humor, a beleza e a alegria. Ela, que sequer era latina (afinal nasceu portuguesa), nunca se naturalizou brasileira ou americana, morreu sendo portuguesa. Mas a brasilidade e a latinidade de Carmen Miranda encantou o mundo. Pode se dizer que o que fez o sucesso de Carmen foi à identidade cultural brasileira que ela carregava consigo mesma. Não pode existir nada mais brasileiro que Carmen Miranda, a brasileira mais famosa do século XX.



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